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Blog à solta

Textos de um estudante preso em Coimbra com a ambição de ser crítico de música

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Textos de um estudante preso em Coimbra com a ambição de ser crítico de música

Aquele filme estranho...

Sabem aquele filme peculiar que vos fica na memória e que muda completamente a vossa perspetiva sobre o cinema em si? Se não sabem, provavelmente estarão a "desvalorizar" o cinema enquanto arte e algo que nos deve impactar e abrir olhos a novas perspetivas.

Não sou grande apreciador de cinema, confesso, especialmente do cinema comercial. Ainda assim, no meio da minha curtíssima experiência em dar oportunidades a filmes macabros, achei que seria curioso falar do curioso "Begotten".

 

YALL GOAN MAKE ME ACT A FOOL, UP IN HERE, UP IN HERE

"Isto não é arte"

"Begotten" não é, desde o começo, um filme fácil de se assistir - ainda que também não considere ser propriamente difícil. Apesar de ter sido produzido há pouco mais de 25 anos, o aspeto que temos é como se tivesse sido produzido ainda nos primórdios do cinema.
Não há falas, atores famosos, cores e quase nenhum som. Apenas uma série de imagens pouco nítidas de atos macabros o suficiente para já ter lido comentários como "isto não é arte", "uma obra de um doente" ou "uma das peças mais horripilantes que já assisti na vida".

De certa forma não acho que seja caso para tanto. O mais assustador deste filme não são as imagens visuais em si, pouco nítidas e muito saturadas, mas a imagem mental que o expectador é quase obrigado a construir de forma a desvendar o que o realizador quis colocar no ecrã. "Begotten" cumpre excelentemente o papel que qualquer filme de terror deveria cumprir mas que, no que toca ao cinema atual deste género, falha em muitos casos.
O terror psicológico tem muito mais impacto do que a criatura mais horrenda que os computadores consigam produzir. Nesse aspeto "Begotten" destaca-se da grande maioria dos filmes, mas também pelas mensagens que poderão ser retiradas desta peça.
Cada personagem deste filme representa uma entidade, desde Deus em si até ao filho da Mãe Natureza.
O suicídio de Deus, cena de abertura do filme e também a mais popular, já nos abre o apetite para toda a carga simbólica escondida por detrás de uma obra grandiosa como "Begotten".

O único aspeto menos positivo do filme talvez seja a sua excessiva duração, principalmente em cenas que poderiam ser encurtadas para metade sem que fosse perdida nenhuma carga simbólica importante.

Pode não ser fácil de digerir, mas é com certeza um filme que vale a pena espreitar e analisar de forma profunda, não fosse "Begotten" considerado por alguns críticos como um dos filmes mais importantes e impactantes da História do Cinema Moderno.