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Blog à solta

Textos de um estudante preso em Coimbra com a ambição de ser crítico de música

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Textos de um estudante preso em Coimbra com a ambição de ser crítico de música

Precisamos falar sobre #CasaDoCais

Este não é, de todo, um texto que eu planeei ou imaginei escrever assim tão depressa mas, aparentemente, tenho alguns motivos que me levaram a fazê-lo. Isto porque #CasaDoCais voltou a ser um dos assuntos do dia depois da estreia e a receção não podia ter sido mais mista - se uns adoraram, outros detestaram, certamente terão os seus motivos, mas vou tentar focar mais naquilo que parece ter sido motivo de tanto ódio e alguns comentários um pouco fora do assunto...

Desde o primeiro dia que se sabe que, ao contrário do que nos foi habituado ou impingido, esta série iria tocar em algumas feridas que ainda são taboo - sexualidade, vícios e derivados - e poucas vezes tiveram exposição à larga escala no que toca ao entretenimento nacional. Desde já a polémica era uma garantia, mas precisamos falar sobre esta série e o porquê de ser, inegavelmente, um marco na história do entretenimento em Portugal.

 

Para quem não está muito dentro da história, #CasaDoCais pode ser resumida como a história de Ema que, ao mudar-se para Lisboa, dá de caras com um mundo cheio de vícios onde a típica filosofia "yolo" é o que move as vontades. O desafio de Ema será, presumivelmente, manter os pés assentes no chão no meio de tantas tentações.

 

Embora o primeiro episódio não tenha mostrado nada extremamente chocante, comentários do estilo "isto vai denegrir uma geração", "é irrealista", "vai incentivar os jovens a consumir álcool e drogas" e muitos outros foram ecoando e, honestamente, preciso falar sobre eles.
Vou começar primeiro por apontar detalhes sobre a parte técnica que, na minha opinião foram bem desempenhados. A iluminação, qualidade de som e edição da imagem foram pontos altos. É verdade que não há efeitos especiais muito elaborados, mas em contexto do primeiro episódio também não era necessário, resta esperar para ver o que a série nos reserva.

Agora, partindo para aquilo que realmente interessa, #CasaDoCais não é assim tão irrealista como possa parecer. Claro que tem os seus exageros intencionalmente planeados, ao estilo "in your face!", mas não é de hoje que a malta mais jovem bebe, fuma e, perdoem a linguagem, fode sem grandes preocupações. Porque ser jovem é também aproveitar vícios, explorar novas sensações, fazer trinta por uma linha mesmo que mais tarde se arrependa - simplesmente faz parte! A maior diferença é que, nos dias que correm, não há tanta vergonha em assumir que "eu" já bebi até cair, já fiz sexo sem estar num relacionamento, já experimentei fumar erva e dei aulas sobre como fazer sexo oral à frente das minhas amigas.

Também não é invenção da RTP o culto dos vícios e afins, mesmo fora do contexto de televisão. Os anos 60 trouxeram uma enorme vaga a favor de um novo pensamento acerca das drogas e outros tópicos polémicos, pensamento esse que se refletiu também na música e nas artes em geral, deixando marcas profundas que inegavelmente ainda influenciam o rock e pop atual.

 

O que os anos 60 nos ensinou pode, também, ser transportado para o contexto social atual. O excessivo conservadorismo, que impingia a homossexualidade como algo que não deve estar nos holofotes, chegou a um ponto de saturação tal que tornou-se necessário dar voz a quem faz parte das comunidades "alternativas", o que não implica a extinção da cultura heteronormativa que sempre dominou até hoje.

É aí que #CasaDoCais ganha o troféu por carregar, sem medo do julgamento alheio, uma série de tópicos que ainda são explorados a medo. Pode não ter sido a primeira das primeiras a fazê-lo, mas com certeza foi a primeira a que o fez na ótica de um jovem, velho demais para ser adolescente mas novo demais para ser adulto.

Se o está a fazer de uma forma pseudo-extremista? Provavelmente. Se é totalmente descabida de realismo? Não. Será relembrado como um marco no entretenimento nacional? Com toda a certeza que sim!